REPORTAGEM CRÔNICA COLABORATIVA ENTRE OS BLOGS TIPO ISSO E PODFLAH
O TEATRO ACABOU
O ciclo desastroso e a eliminação do Brasil na Copa do Mundo de 2026
A festa
Antes de qualquer bola rolar, o Brasil já tinha um problema. E ele não estava em campo.
Dia 18 de maio, Museu do Amanhã, Rio de Janeiro. A CBF decidiu que anunciar 26 nomes precisava de shows de Ludmilla, João Gomes, Veigh e Samuel Rosa. Precisava de mil convidados, 700 jornalistas credenciados de 13 países, carro plotado, apresentação musical, dupla de apresentadores tentando segurar clima com piada ensaiada.
Precisava de quase uma hora de evento antes que um único nome fosse dito.
A reação foi imediata, e resume tudo o que viria depois. Um torcedor escreveu nas redes, ainda naquela noite: "nenhuma seleção faz um teatro desses. Era só chegar na entrevista e dizer os nomes." Outros foram na mesma direção: "show de horrores", "que enrolação", "teatrinho desnecessário".
Teatro. A própria torcida já tinha escolhido a palavra, dois meses antes de qualquer coisa acontecer em campo.
Essa piada de mal gosto foi "em parte show corporativo, parte demonstração de tecnologia, parte improviso desconfortável. Tudo, menos o que deveria ser: um anúncio direto, respeitoso e centrado no futebol."
E o futebol? Que nada. Era o ato perfeito para a mais imperfeita improvisação de dizer que a casa estava arrumada. A cortina de fumaça ideal, pra varrer a sujeira para baixo do tapete. Um teatrinho infanto-juvenil que sinceramente, não serviu nem "pra inglês ver".
Eis que chegou a Copa do Mundo de 2026. Confiança nos rostos e claro, nos discursos prontos de Assessoria de Imprensa de milionários que vestem a camisa verde amarela da CBF.
Uma hora amigos, a ficha teria que cair. E caiu.
E, no meio de tudo isso, o retorno mais discutido do ciclo: Neymar. Fora do grupo principal havia dois anos, o camisa 10 voltou à lista em meio a festa e polêmica. Sem apresentar rigorosamente nível de futebol algum para sequer se credenciar à convocação, "menino Ney" pouco entrou em campo nos últimos anos, a não ser os daquela tal King's League. Neymar Jr não conseguia lidar com a intensidade dos jogos nem contra o Deportivo Recoleta. Mas voltemos...
Foi convocado contundido, o que obrigou o Santos a comunicar a CBF sobre "um pequeno edema" na panturrilha. Dias depois, o diagnóstico mudou: lesão de grau 2, semanas de recuperação, jogador descrito como "abatido e mancando bastante". A cronologia fala por si.
A plateia da convocação, aliás, dizia muito sobre as prioridades daquele momento. Atores, atrizes, políticos, nomes do entretenimento — presentes num evento que deveria ser sobre 26 jogadores e virou vitrine de quem mais aparece.
Neymar foi ovacionado quando seu nome foi confirmado. Cena de comédia pastelão de quinta categoria. Uma vergonheira sem tamanho. E claro, faturou 30 milhões de reais em publicidade em menos de uma hora após ser anunciado. Com propaganda gravada, prontinha para ir ao ar.
E assim o roteiro do filme de terror finalmente estava definido.
Os bastidores
Pra entender o tamanho da queda, é preciso entender de que altura ela veio. E a resposta é: de lugar nenhum. O Brasil não caiu de um lugar alto. Já vinha se arrastando havia anos.
Foram quatro técnicos em um único ciclo. Ramon Menezes, interino, mal esquentou o banco. Fernando Diniz, também interino, enquanto a CBF negociava por baixo dos panos com um italiano que ainda tinha contrato em vigor na Europa. Dorival Júnior, mais de um ano no cargo, sem entregar identidade nenhuma. E, por fim, Carlo Ancelotti — o nome badalado, o currículo internacional, chegando tarde demais pra construir qualquer coisa sólida. E no prisma de hoje, 1 ano depois, continuou sem conastruir rigorosamente nada.
Enquanto isso, na cadeira de cima, o cargo mais importante do futebol brasileiro também não parava quieto. Ednaldo Rodrigues foi afastado da presidência da CBF em meio a acusações de irregularidades. Samir Xaud assumiu. A entidade que deveria dar estabilidade ao projeto de seis anos vivia sua própria novela de poder. Xaud levou até amante pra Copa, com dinheiro da CBF e calou-se, simplesmente.
O resultado, em números frios: a pior campanha da história das Eliminatórias brasileiras. Quinto lugar. Três derrotas seguidas — coisa que a Seleção nunca tinha feito nas Eliminatórias sul-americanas. E aqui cabe uma ironia que poucos comentam: o Brasil, historicamente, só constrói confiança batendo vizinho sul-americano nas Eliminatórias porque é só quem enfrenta nessa fase. Ultimamente, nem isso mais consegue com regularidade.
O jogo
Domingo, 5 de julho. MetLife Stadium, Nova Jersey. Oitavas de final.
A escalação de Ancelotti já sinalizava a estratégia: abrir mão do controle da bola, apostar na velocidade dos quatro atacantes, sair no contra-ataque. O Brasil, num 4-2-4 não funcional, contra a Noruega? Com todo respeito, mas renegar a bola contra a Noruega?
Os números contam a história sem precisar de adjetivo. O Brasil terminou a partida com 34% de posse de bola — a menor marca da Seleção em Copas do Mundo desde que as medições começaram, em 1966. A Noruega chegou a ter quase 80% em trechos-chave. Não foi apenas uma equipe jogando melhor. Foi um Brasil que, na prática, abriu mão de jogar. Teve um trecho, antes do primeiro gol norueguês, que resume tudo: cerca de cinco minutos e cinquenta segundos em que o Brasil sequer conseguiu trocar um passe completo. Três tentativas de tocar a bola, três vezes sem sucesso — seja tentando lançar, seja tentando afastar. Sem marcação organizada, sem disputa de bola, sem reação. Foi só correr atrás de sombra.
Ainda no primeiro tempo, veio a chance de abrir o placar: pênalti a favor, batido por Bruno Guimarães. Nyland, o goleiro norueguês, defendeu. Já era um aviso do tipo de tarde que seria. Mas porque Bruno Guimarães? Melhor aproveitamento numa média feita com 3 pênaltis batidos? Isso é insanidade. Uma completa e absoluta insanidade.
No segundo tempo, Ancelotti foi o culpado direto pela piora grosseira da Seleção. Colocou Endrick, que perdeu gol feito em lançamento de Vini Jr. Mas ao colocar Neymar, força o deslocamento posicional de Endrick e por consequência, do time inteiro. Um Frankstein em campo. Um time que já estava desestruturado tentando se equilibrar entre o plano original e o improviso, ficou pior. Muito pior. A troca trouxe mais desordem.
Haaland fez o resto. Duas finalizações, dois gols — de cabeça aos 34, de perna direita aos 44 do segundo tempo. Livre nas duas vezes, porque o Brasil, estéril, sem marcar, criar, dar o bote, nada... Rigorosamente nada. Um bando em campo.
Neymar ainda descontou de pênalti, arranjou discussão, deu pontapé. Um triste fim. Retrato de uma queda anunciada.
O último ato
Se o jogo já doía, o epílogo dele doeu mais.
Nos minutos finais, com o Brasil atrás no placar e a eliminação sacramentada, Neymar se envolveu em uma sequência de atritos. Primeiro, um pontapé no adversário, seguida de bate-boca com os noruegueses e cartão amarelo. Minutos depois, nova discussão — dessa vez direto com o goleiro Nyland.
Antes de bater o pênalti que resultaria no gol de honra, Neymar pediu, provocando, para que o próprio goleiro escolhesse o lado da cobrança. Bateu, converteu, e foi comemorar rindo na cara do adversário — o mesmo goleiro que, minutos antes, tinha defendido a cobrança de Bruno Guimarães e sustentado a Noruega em pé durante toda a partida. AO invés de pegar a bola e tentar um último lance, mais uma vez, Neymar pensava apenas nele. Um papelão.
Aos 34 anos, disputando sua provável última Copa do Mundo, Neymar termina o torneio com um gol, seu próprio "recorde"de artilheiro, e uma cena que ficará mais lembrada do que o gol em si. Até porque a marca de UM GOL em Copa, é de chorar para um nome tão badalado.
Um pontapé, uma discussão, uma risada de provocação. No fim, o que sobrou foi ele discutindo, sozinho, sua própria narrativa de despedida.
O epílogo
O apito final não encerrou apenas um jogo. Encerrou um ciclo inteiro de ilusão.
Com a eliminação, o Brasil chega a 2030 marcando 28 anos sem título mundial — o maior jejum da história da Seleção, superando até o intervalo entre 1970 e 1994. É também a pior campanha brasileira em Copas desde 1966.
E existe um detalhe que atravessa esta Copa e nenhuma outra: pela primeira vez, as grandes seleções chegaram ao Mundial apostando nos seus craques. A Argentina com Messi. A França com Mbappé. A Noruega com Haaland. Brasil chegou apostando no nome do técnico. Um técnico que nem de longe parece conhecer o que é ser Brasil em Copas do Mundo.
Vale reforçar: a Noruega não chegou de graça. Fez o dever de casa, jogou o que tinha que jogar, mereceu. E aqui cabe uma distinção importante. Bélgica, em 2018. Croácia, em 2022. Noruega, agora. Nenhuma dessas três é seleção de primeira prateleira histórica — diferente da Holanda de 2010 ou da França de 2006, gigantes que também eliminaram o Brasil em ciclos anteriores. A queda não é mais só para os grandes. É para quem faz o trabalho direito, enquanto o Brasil segue tropeçando na sua história recente. A cada Copa, uma queda. A cada queda, um degrau mais baixo. É um padrão instalado.
Duas semanas antes da eliminação, um garoto japonês de 21 anos, que sequer entrou em campo contra o Brasil, disse em entrevista que "o Brasil não é mais o Brasil de antigamente". Foi chamado de soberbo. Foi hostilizado. Depois, recuou parcialmente — mas manteve o essencial: os gols do passado não garantem mais nada no presente.Ele não estava sendo arrogante. Estava sendo, infelizmente, preciso. Cirurgicamente realista.
Porque o respeito que o mundo ainda tem pelo Brasil no futebol é, cada vez mais, um respeito histórico — não um respeito pelo presente. E isso não é só sobre futebol. É reflexo do nosso país.
Futebol nunca é só futebol. Ele é espelho. E o espelho, dessa vez, devolveu uma imagem que o Brasil preferia não ver: um país que troca estrutura por espetáculo, que aposta em nome em vez de projeto, que finge grandeza em vez de construí-la — dentro e fora de campo.
Carlo Ancelotti, depois da derrota, deixou o gramado sem falar com a imprensa. Foi seu auxiliar, Davide, quem compareceu à entrevista coletiva, comentando "pequenos erros" e a decisão pré-definida de quem bateria o pênalti perdido. O próprio técnico, mais tarde, apareceu para dizer que seguia no cargo, chamando o momento de "início de um novo ciclo".
Um novo ciclo anunciado por quem não teve estômago para explicar o fim do anterior, ao vivo, na hora da dor.
O Brasil que chegou encenando confiança na convocação, terminou encenando naturalidade na derrota.
Entre a festa do Museu do Amanhã e o silêncio do vestiário do MetLife Stadium, a Seleção não perdeu apenas uma Copa do Mundo. Perdeu a capacidade de assumir, sem roteiro, quem realmente é.